Cultura afro-brasileira

Como visitar um quilombo com respeito: turismo comunitário

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  1. O que é um quilombo
  2. Como funciona o reconhecimento oficial
  3. Dois exemplos de turismo comunitário
  4. Como chegar
  5. Quando ir
  6. Onde ficar
  7. O que fazer e como se comportar
  8. Custos
  9. Perguntas para a associação antes de reservar
  10. O que o cadastro diz e o que não diz
  11. Pule se
  12. Relacionados

Um quilombo é uma comunidade viva, com moradores, trabalho e regras próprias. Visite só por meio da associação da comunidade, combine o preço e o que ele cobre antes de chegar e siga as regras que os moradores definem. A Fundação Cultural Palmares cadastra as comunidades que se autodefinem como remanescentes de quilombos, mas estar cadastrada não é um convite a turistas.

O que é um quilombo

Na época da escravidão, quilombos eram comunidades formadas por pessoas escravizadas que fugiam e construíam uma vida livre, muitas vezes em áreas de difícil acesso. O mais conhecido foi o Quilombo dos Palmares, no atual estado de Alagoas, liderado por Zumbi. O dia da morte de Zumbi, 20 de novembro, é hoje o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra.

As comunidades quilombolas de hoje descendem desses grupos e de outras comunidades negras que ocuparam terras durante e depois da escravidão. Elas estão em quase todos os estados, no campo e nas cidades. No Censo de 2022, mais de um milhão de pessoas se declararam quilombolas. A Constituição de 1988 reconhece o direito dessas comunidades às terras que ocupam.

Muitas comunidades vivem da agricultura, da pesca, do extrativismo e do artesanato. Algumas passaram a receber visitantes como forma de gerar renda e contar a própria história. Nessas visitas, os moradores são anfitriões, guias e donos do território.

Como funciona o reconhecimento oficial

A Fundação Cultural Palmares, órgão do governo federal, mantém o Cadastro Geral de Remanescentes das Comunidades dos Quilombos. A Portaria nº 57, de 31 de março de 2022, define como uma comunidade obtém a certidão de autodefinição. A comunidade apresenta a ata de uma reunião convocada para decidir a autodefinição, um relato da história do grupo e um requerimento escrito à presidência da Palmares. A certidão é gratuita.

A certidão registra a autodefinição. Ela não classifica comunidades, não diz quem pode guiar visitantes e não tem relação com turismo. Uma comunidade certificada pode ou não receber visitantes.

A titulação das terras é um processo à parte. O Incra é a autoridade federal responsável por titular os territórios quilombolas, pelo Decreto 4.887/2003. Muitas comunidades ainda aguardam a titulação, e a questão da terra é sensível. Deixe que os moradores levantem o assunto.

A CONAQ, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas, foi formada em 1996 e é a maior articulação nacional do movimento, com coordenações em 23 estados. Ela não organiza visitas, mas o site ajuda a entender as pautas das comunidades.

Dois exemplos de turismo comunitário

Quilombo Kalunga, Goiás

O território Kalunga é o maior território quilombola do Brasil, no nordeste de Goiás, perto da Chapada dos Veadeiros. A comunidade do Engenho II, em Cavalcante, recebe visitantes por meio da Associação Kalunga Comunitária do Engenho II (AKCE). As decisões sobre turismo são tomadas em assembleia.

A AKCE venceu a categoria de turismo de base comunitária e social do Prêmio Nacional do Turismo 2023. A rede da comunidade reúne cerca de 200 guias, cinco restaurantes, três hospedagens e 17 prestadores de transporte. Os moradores definem as regras de visitação, guiam os visitantes e oferecem comida, hospedagem, transporte e experiências culturais.

O principal atrativo são as cachoeiras do território, entre elas a Santa Bárbara, conhecida pela água azul. A visita às cachoeiras é feita com guia local da comunidade, e o número de visitantes é controlado.

Sobre o dinheiro, a associação paga primeiro a equipe, os custos de funcionamento e a manutenção. Parte do restante vai para investimentos que a comunidade escolhe, como estradas, veículos, internet, água, cursos, saúde e eventos culturais. Parte dos ingressos das cachoeiras financia infraestrutura, educação, saúde, esporte e cultura.

Rota da Liberdade, Recôncavo Baiano

No distrito de Santiago do Iguape, no município de Cachoeira, a cerca de 50 km de Salvador, comunidades quilombolas criaram um projeto de turismo comunitário em 2005. As mulheres quilombolas lideraram o projeto desde o início. Kaonge e Dendê estão entre as comunidades participantes, à beira da Baía do Iguape, uma área de manguezais, pesca e cultivo de ostras.

O projeto oferece roteiros conduzidos por jovens das próprias comunidades, com reserva antecipada de cerca de 48 horas. Os passeios mostram a produção de azeite de dendê, a mariscagem, a culinária e a história local. A renda segue um modelo de economia solidária: ingredientes e artesanato vêm de muitas famílias, e o dinheiro se espalha entre elas. As comunidades da região também se organizam em um conselho quilombola que reúne Santiago do Iguape e São Francisco do Paraguaçu.

Confirme antes de ir: o contato atual da associação de cada comunidade. Não reserve pelo antigo endereço de site da Rota da Liberdade, que hoje não pertence ao projeto. Peça o contato a guias de Cachoeira ou a organizações de turismo afro-baiano em Salvador, e confirme que o pagamento vai para a associação.

Como chegar

O caminho depende da comunidade. Combine sempre o transporte com a associação, porque muitas ficam em estradas de terra e sem sinalização.

Recôncavo. Santiago do Iguape fica a cerca de 1h30 de Salvador de carro ou de ônibus. O projeto não oferece traslado, então você chega por conta própria ou com um motorista contratado. A cidade de Cachoeira serve de base. Veja o bate-volta a Cachoeira e ao Recôncavo para conhecer a região.

Kalunga. A comunidade do Engenho II fica no município de Cavalcante, em Goiás, e se chega por estrada de terra a partir da cidade. Brasília é o aeroporto mais próximo com voos regulares. Na chuva, alguns trechos ficam difíceis para carro baixo. Pergunte à associação sobre o estado da estrada e se ela indica um transporte da própria comunidade.

Quando ir

A melhor época depende do clima da região e do calendário da comunidade. No Cerrado de Goiás, a estação seca vai mais ou menos de maio a setembro, com estradas melhores e cachoeiras com água clara. Na chuva, de novembro a março, as cachoeiras enchem e podem ter trombas d’água, e algumas trilhas fecham.

No Recôncavo, chove mais de abril a julho. O resto do ano costuma ser mais seco.

Pergunte também por festas e datas importantes. Algumas comunidades recebem visitantes em festas religiosas e culturais. Outras preferem não receber nesses dias. Feriados prolongados lotam as cachoeiras do Kalunga.

Onde ficar

Muitos projetos comunitários oferecem hospedagem e refeições. No Kalunga, a comunidade tem hospedagens próprias, e Cavalcante tem pousadas na cidade. No Recôncavo, Cachoeira é a base mais prática, com pousadas no centro histórico.

Sempre que possível, durma e coma na própria comunidade. É a forma mais direta de deixar renda com os moradores. Pergunte à associação o que ela oferece e quem recebe por cada serviço.

O que fazer e como se comportar

  • Reserve pela associação. Não contrate um terceiro que ofereça visita a um quilombo sem dizer qual comunidade é beneficiada.
  • Peça licença antes de fotografar pessoas, casas, cerimônias e crianças. Um não é definitivo.
  • Pague o que a comunidade pedir, da forma como pedir. Leve dinheiro em notas pequenas. Veja dinheiro no Brasil.
  • Não trate a visita como uma apresentação. Os moradores guiam você pela própria terra e pelo próprio trabalho.
  • Evite política e assuntos de terra, a menos que um morador puxe o tema.
  • Compre artesanato e produtos locais direto de quem faz.
  • Descubra quem recebe. Pergunte à associação como as taxas são divididas.

Custos

Cada comunidade define os próprios preços. Em geral você paga separadamente o guia, as refeições, a hospedagem e, no Kalunga, o ingresso das cachoeiras. Os valores costumam ser modestos comparados a passeios comerciais, e uma parte vai para fundos coletivos.

Confirme antes de ir: o valor de cada serviço e se o pagamento é em dinheiro, Pix ou cartão. Em comunidades rurais, o sinal de celular pode falhar, então leve dinheiro em espécie.

Perguntas para a associação antes de reservar

  1. Quem conduz a visita, e a taxa é paga à associação da comunidade?
  2. O que a taxa cobre: guia, refeições, hospedagem, transporte?
  3. Quais partes da comunidade estão abertas a visitantes e quais não estão?
  4. Quais são as regras sobre fotos, drones e gravações?
  5. Quantas pessoas a comunidade pode receber de uma vez?
  6. Existe regra de cancelamento, e com quem falar se estradas ou clima impedirem a chegada?

Se um intermediário responder no lugar da associação, pergunte qual comunidade se beneficia e como. Se ninguém souber dizer, escolha outro anfitrião.

O que o cadastro diz e o que não diz

A Palmares tem 180 dias para concluir um pedido de certificação, prorrogáveis uma vez, e pode visitar a comunidade. Pedidos redigidos mais de 365 dias antes de chegarem à Palmares não são analisados. A Palmares também não resolve disputas internas entre membros da comunidade.

Leia a certidão como prova de uma autodefinição registrada, não como selo de turismo. A CONAQ tem coordenadores estaduais em 23 estados: 4 no Norte, 9 no Nordeste, 3 no Centro-Oeste, 4 no Sudeste e 3 no Sul. Use o site para entender o movimento, não para reservar.

Pule se

  • Você não consegue contatar a associação com antecedência. Chegar sem avisar deixa o anfitrião numa situação difícil.
  • Você quer só uma parada para foto. As comunidades recebem visitantes para conversar, ensinar e trabalhar juntas.
  • Você espera horário fixo e serviço de hotel. O turismo comunitário segue o ritmo e o calendário da comunidade.
  • Você não aceita estrada de terra e pouca estrutura. Muitas comunidades ficam longe dos centros urbanos.

Relacionados

O roteiro completo está no guia afro-brasileiro.

Perguntas

O que é um quilombo hoje?
É uma comunidade negra rural ou urbana que se reconhece como descendente de quilombos e mantém território, história e modo de vida próprios. A Fundação Cultural Palmares registra essas comunidades no Cadastro Geral de Remanescentes das Comunidades dos Quilombos.
Posso chegar a um quilombo sem avisar?
Não é recomendável. Onde há turismo, a comunidade define as regras e organiza os serviços, então entre em contato com a associação antes e combine a visita.
Um certificado da Palmares significa que a comunidade oferece passeios?
Não. A certidão registra a autodefinição da comunidade e não tem relação com turismo. Muitas comunidades certificadas não recebem visitantes.
Quem fica com o dinheiro de uma visita?
Depende da comunidade. No Quilombo Kalunga, a associação paga primeiro a equipe e os custos de funcionamento e investe parte do restante em projetos escolhidos em assembleia. Faça a mesma pergunta a qualquer anfitrião antes de reservar.
Posso tirar fotos?
Peça licença antes a cada pessoa e à associação. Um não é definitivo, e algumas cerimônias e espaços não podem ser fotografados.

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